Contexto e foco da atualização
A diretriz EuroGuiDerm (2026) atualiza as recomendações de 2016 para o tratamento da acne, focando em questões críticas da prática clínica diária. O painel de especialistas priorizou a seleção entre isotretinoína e antibióticos sistêmicos, a duração ideal da antibioticoterapia, o papel dos tratamentos hormonais (incluindo espironolactona) e o posicionamento de terapias tópicas emergentes. O objetivo central é otimizar a eficácia terapêutica e mitigar o risco de resistência antimicrobiana.
Antibioticoterapia sistêmica: Limites e cautela
A diretriz é enfática: o uso de antibióticos sistêmicos deve ser limitado a, no máximo, 3 meses. Prolongar o tratamento além desse período deve ser uma exceção, justificada apenas por circunstâncias clínicas muito específicas, devido ao risco real de indução de resistência bacteriana, que impacta o microbioma do paciente e a saúde pública.
Isotretinoína: Indicações e manejo
A diretriz reforça a indicação de isotretinoína para acne papulopustular grave, acne nodular moderada e formas conglobatas. Embora não haja consenso sobre uma dose cumulativa rígida, a prática sugerida é manter o tratamento por pelo menos 6 meses, garantindo que o paciente permaneça livre de lesões inflamatórias por 1 a 2 meses antes da suspensão.
Em quadros de acne conglobata com inflamação intensa, dor acentuada ou progressão fulminante, a associação com corticosteroides sistêmicos (ex: prednisona 0,5–1 mg/kg/dia por 4–5 semanas) pode ser considerada para controle inicial do quadro inflamatório.
Terapias hormonais e espironolactona
O uso de contraceptivos orais combinados (COCs) e espironolactona é uma alternativa para mulheres com acne moderada a grave, especialmente quando associada a sinais de hiperandrogenismo ou desejo de contracepção. A espironolactona, embora utilizada off-label, é destacada como uma opção valiosa para mulheres com acne hormonal.
Segurança e novas terapias
A diretriz aborda a preocupação sobre o peróxido de benzoíla (BPO) e o risco de degradação em benzeno, concluindo que as evidências atuais não sustentam um aumento de risco de neoplasias malignas em pacientes em tratamento para acne. Quanto a novas terapias, como a clascoterona, embora aprovada, o grupo optou por não integrar o fármaco aos algoritmos de tratamento nesta atualização devido à ausência de dados de experiência clínica no momento da conferência de consenso.
Limitações da evidência
É importante ressaltar que a falta de estudos comparativos diretos (*head-to-head*) entre novas opções tópicas (como trifaroteno e clascoterona) e os tratamentos convencionais limita recomendações mais robustas. A seleção terapêutica deve continuar baseada na gravidade clínica, nas características individuais da paciente e no perfil de segurança de cada agente.
Referência: Update of the EuroGuiDerm evidence‐based guideline for the treatment of acne—Short version. Alexander Nast, Bassel H. Al Wattar. JEADV, 2026. DOI: 10.1111/jdv.70331
