O desafio da não adesão no Diabetes Tipo 2
A adesão terapêutica é o pilar fundamental para o manejo do diabetes mellitus tipo 2 (DM2), mas permanece um desafio clínico persistente. Estima-se que cerca de 38% dos pacientes não utilizam seus medicamentos conforme prescrito, um cenário que impacta diretamente o controle glicêmico e a progressão da doença. A não adesão não é um evento isolado, mas um processo que pode ocorrer na iniciação, na implementação (falha na regularidade) ou na descontinuação precoce do tratamento.
Para o clínico, é essencial reconhecer que a não adesão está frequentemente associada a um aumento dose-dependente nos níveis de HbA1c, maior risco de complicações micro e macrovasculares e elevação significativa dos custos hospitalares evitáveis. A inércia terapêutica, muitas vezes, é agravada por essa falta de adesão, dificultando a decisão do médico sobre quando intensificar a terapia.
Monitoramento clínico: Além do autorrelato
A avaliação da adesão ainda carece de um "padrão-ouro". Embora métodos subjetivos, como o autorrelato e questionários (ex: MMAS), sejam úteis para identificar as razões da não adesão, eles tendem a superestimar o comportamento do paciente. Métodos objetivos, como a análise de registros de dispensação (PDC ou MPR) e, mais recentemente, testes bioquímicos, oferecem uma visão mais fidedigna do cenário real.
Estratégias de intervenção na prática médica
As evidências indicam que intervenções multifacetadas, adaptadas às barreiras individuais de cada paciente, são as mais eficazes. O papel do médico prescritor é central na orquestração dessas estratégias:
- Simplificação do regime: A utilização de terapias de dose fixa combinada (FDC) é uma estratégia robusta para reduzir a carga de comprimidos e melhorar a adesão, com benefícios documentados na redução da HbA1c e eventos cardiovasculares.
- Intervenções lideradas por farmacêuticos: A integração de farmacêuticos clínicos na equipe multidisciplinar tem demonstrado impacto positivo na adesão e nos desfechos glicêmicos através de revisões de medicação e educação terapêutica.
- Educação e Empoderamento: Programas de autogerenciamento que utilizam técnicas de mudança de comportamento são mais eficazes do que a simples transmissão de informações.
Incertezas e perspectivas
Embora intervenções baseadas em tecnologia (apps e lembretes por SMS) sejam promissoras, os resultados ainda são heterogêneos. O médico deve considerar o perfil do paciente, garantindo que a tecnologia não exclua idosos ou indivíduos com menor letramento digital. A decisão compartilhada, embora intuitivamente benéfica para a confiança na relação médico-paciente, ainda carece de evidências robustas que a vinculem diretamente a melhores desfechos glicêmicos, sugerindo que ela deve ser parte de um conjunto de ações, e não uma estratégia isolada.
Referência: Improving medication adherence in type 2 diabetes: strategies for better clinical and economic outcomes. Highton, P. J., Funnell, M. P. Diabetologia, 2025. DOI: 10.1007/s00125-025-06617-x
